Nesse dia eu estava tranquilo, na praia, sem procurar nada, sem pensar em nada. O mar ia e vinha, o vento batia de lado, eu estava ali naquela paz meio suspensa de Dorival Caymmy. Foi quando vi de soslaio uma nave se aproximando.
Ela surgiu sobre o mar sem fazer barulho, passou devagar por cima de mim com uma espécie de raio ultrassônico. Senti um arrepio subindo pela nuca, descendo pelas costas, atravessando o corpo inteiro. Achei que fosse medo, mas era outra coisa. Uma mensagem. Um download. Uma atualização de sistema.
Desde então, todos os dias, quando preciso tomar alguma decisão importante, sinto esse mesmo arrepio. Só que no começo eu entendi tudo errado. Achei que o arrepio indicava o caminho certo. Me dei mal, foram vários erros até eu perceber o padrão. O arrepio vinha justamente quando a decisão era errada.
Era um alarme cósmico, Um “não vá por aí” enviado diretamente de alguma central de inteligência galáctica, provavelmente com técnicos impacientes observando minhas escolhas e dizendo: “Ele ainda não entendeu.”
Essa extraterrestre maravilhosa eu conheci na última vez que estive em Amsterdam. Um amigo me levou a um coffee shop meio escondido, daqueles que não aparecem em guia nenhum. A entrada era discreta, e lá dentro tudo parecia conspirar em silêncio: luz baixa, música estranha, gente de todo tipo e algumas presenças que, sinceramente, não pareciam ter passado pela alfândega terrestre.
Mas ela se destacava. Elegantíssima, serena, vestida como uma embaixadora de outro sistema solar. Era fornecedora de um cogumelo raríssimo, vindo diretamente do planeta dela, a milhares de anos-luz da Terra. Segundo me explicaram, o produto não precisava ser ingerido, comprado, transportado nem escondido. Era muito mais sofisticado: ela vinha em sonho.
Bastava dormir e sonhar com ela. No sonho, ela oferecia os cogumelos. Cada um abria uma porta diferente: lembranças de vidas em planetas aquáticos, conversas com árvores que falavam holandês antigo, aulas de culinária com poeira de estrela. Achei tudo muito improvável. Mas bastou chegar em Amsterdam para começar a sonhar.
Na primeira noite, ela apareceu numa ponte sobre um canal e disse apenas: “Você pediu expansão, mas esqueceu de especificar o endereço.”
Acordei falando uma língua que eu mesmo não entendia, mas que parecia extremamente adequada para pedir café da manhã. Desde então, toda vez que sinto cheiro de chuva em Amsterdam, desconfio que ela está por perto. Sempre trabalhando, distribuindo discretamente seus cogumelos interplanetários para quem ainda acredita que a realidade termina quando a gente acorda.
Esses malandrinhos da imagem foram os ETs que encontrei lá na Chapada dos Veadeiros. O pessoal acha que na região só aparecem ETs de luz, seres elevados, consciências cristalinas, mas também tem os sorrateiros. Aqueles que surgem de mansinho, fingem simpatia, fazem pose para selfie e, quando você percebe, já levaram alguma coisa.
Ou melhor: você nem percebe. Eles são tão ardilosos que, junto com o roubo, aplicam uma amnésia seletiva. A pessoa perde algo e esquece que aquilo existia. Ou seja: você já não possui mais o que foi surrupiado, mas também não lembra que um dia possuiu. Técnica refinadíssima. Se bobear, levam até uma ideia boa que você ainda nem teve.
Comigo, por sorte, não funcionou. Descobri depois que o antídoto para esse tipo de manipulação mental é o grão-de-bico. E, por uma dessas coincidências que coincidência nenhuma explica, eu tinha comido grão-de-bico no almoço. Muito grão-de-bico, aliás. Hummus, salada, patê, uns bolinhos suspeitos. Na hora achei exagero. Hoje entendo que era proteção.
Essa foto é de quando passei uma temporada com uma civilização avançadíssima de insetos. O planeta deles orbita uma estrela da constelação de Órion. Pediram pra não divulgar o endereço exato, por motivos diplomáticos, estéticos e, segundo me explicaram, “para evitar turistas mal vestidos”.
São muito refinados. Têm bom gosto, senso de design, etiqueta, arquitetura, perfumaria, moda e iluminação a anos-luz da Terra. Lá, tudo é pensado. As cidades parecem joias vivas. Os prédios mudam de cor conforme a posição das luas. As asas são tratadas como alta-costura. E ninguém sai de casa sem um acessório iridescente, porque, para eles, neutralidade em excesso é sinal de desequilíbrio espiritual.
Consegui chegar nesse planeta VIP porque tenho bons contatos. Não vou citar nomes, mas digamos que algumas amizades intergalácticas rendem convites difíceis de recusar. Fui muito bem recebido, embora tenha passado por uma triagem rigorosa: análise vibracional, teste de elegância, checagem de intenções e uma entrevista sobre minhas referências visuais.
Acho que passei raspando. No fim da temporada, ganhei de presente esse outfit com asas. Um traje cerimonial usado em deslocamentos rápidos, recepções noturnas e entradas dramáticas. Eles disseram que combinava comigo porque misturava brilho, absurdo, dignidade e certa tendência a chegar atrasado.




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