Dizem que os extraterrestres aparecem em discos voadores, fazem sinais no céu e deixam rastros luminosos. Eu desconfio que muitos deles vivem por aqui mesmo, misturados na cidade, disfarçados de gente excêntrica.
Costumam aparecer ao acaso, mas talvez só se aproximem de quem vibra na mesma frequência. De quem gosta de conversar com o improvável, atravessar a noite sem roteiro e aceitar que a realidade tem mais camadas do que parece. Há os elegantes, os melancólicos, os que conhecem músicas ainda não compostas, os que enxergam demais, os que frequentam lugares que ainda não existem.
Resolvi registrar esses encontros:
A imagem de cima foi quando saí de casa vestido de rosa e encontrei um extraterrestre mais elegante do que eu. Ele não perguntou de onde eu vinha, nem explicou de onde tinha chegado. Apenas ajeitou os óculos, ficou ao meu lado e seguimos pela noite como se aquele encontro já estivesse marcado há séculos-luz.
No fim, ele era pura simpatia. Levou-me a um clube na constelação de Órion, com música, copos acesos e criaturas dançando... Não sei quanto tempo fiquei lá. Quando acordei, estava de volta, ainda vestido de rosa, com a impressão de que conhecia todos os futuros possíveis.
Ceta noite conheci um extraterrestre amava amarelo e mapas. Quando disse que era astrólogo, seus olhos brilharam. Eram os mapas que ele mais amava.
Usava um chapéu da mesma cor da roupa, um colar pesado demais para aquele pescoço fino e uma expressão de quem já tinha se perdido em muitas galáxias antes de aprender o caminho. Falava baixo, como se cada palavra custasse energia cósmica.
Disse que os mapas terrestres eram limitados. Mostravam ruas, países, fronteiras, estradas, rios e montanhas. Com exceção dos mapas astrológicos, claro. Mas os dele mostravam mais possibilidades. Havia mapas para futuros abandonados, paixões que quase aconteceram, cidades sonhadas por arquitetos adormecidos, bares que só abrem em noites de eclipse e caminhos secretos entre uma decisão e outra.
Perguntei quanto custava um mapa da sua coleção. Ele respondeu que dependia do destino. Alguns custavam dinheiro. Outros custavam coragem. Os mais raros exigiam desapego, bom humor e sapatos confortáveis. Escolhi um pequeno, dobrado em quatro partes, com manchas douradas e uma seta apontando para a frente.
Ele me disse: Este é ótimo. Leva exatamente aonde você precisa ir, mas faz questão de passar antes por onde você jamais iria sozinho.
Guardei no bolso. Desde então, toda vez que me perco, desconfio que estou seguindo o mapa certo
Esse eu conheci um extraterrestre numa gira de Umbanda.Até aí, nada tão surpreendente. A casa estava cheia, os pontos cantados abriam caminho, os atabaques chamavam forças antigas e eu já aprendi que, quando o invisível resolve circular, ninguém controla muito bem quem chega.
O curioso foi descobrir que ele tinha o mesmo sobrenome da família do meu pai: Pereira. Achei coincidência. Ele achou ingenuidade. Mais tarde, puxou conversa num canto e falou baixo, como quem revela segredo antigo de família:
— Seu tataravô era ET.
Fiquei em silêncio. Ele me explicou que alguns Pereiras vieram de Portugal, outros de Minas, alguns da roça, alguns dos arquivos paroquiais. Mas uma linhagem específica teria descido de uma constelação pouco comentada nos almoços de domingo.
Desde então, quando alguém da família diz que eu sempre fui meio diferente, apenas concordo. Herança genética, espiritual e interplanetária.




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