sexta-feira, 15 de maio de 2009

ESCUTATÓRIA, de Rubem Alves

(Ainda na onda de Mercúrio retrógrado, segue outro excelente texto, dessa vez de Rubem Alves (sou fã!) intitulado ESCUTATÓRIA. IdoMind, colaborador do blog JARDIM, comentou que faltou falar dos que escutam lá no post de baixo. Me deu essa idéia, vejam que texto interessante.)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

16 comentários:

Cris disse...

Marcelo,

Hoje eu saio do Dalla Blog uma pessoa melhor, eu simplesmente, adorei o que você escreveu!

Luz, paz e bem meu querido!

Christiane Forcinito Ashlay Silva de Oliveira disse...

Marcelo

Eu também adorei o que escreveu. Hoje particularmente, ainda estou me restabelecendo por causa da minha saúde o silêncio tem sido o que eu mais prezo.

Estou até passando rapidinho nos blogs dos amigos só para dixer um oi... O cansaço ainda é grande...

Abração! Amo Fernando pessoa também...

@lgo Sobre... disse...

eu sempre adoro o que vc escreve... uns posts mais queridos q outros, mas todos maravilhosos... e muito obrigada por mais um selinho... ainda estou pensando bem na minha lista...
beijossssssss

Ausência Instável disse...

Pessoal falá serio,
Marcelo é um encanto.

Concordo que também saio como uma pessoa bem melhor.

Se pensarmos em tudo o que disse é verdade, quem se escuta, escuta sua propria alma.

Uma trecho do que escrevi: " Você vai se encontrar".

O mar faz parte do grande conteúdo da vida, faça o que tem que fazer, e nunca tema de tentar, seja pelo silêncio, ou seja pela reflexão, sempre opite pelo um caminho, se for para carregar a dor de uma saudade, ou apenas lembrar, não deixe de fazer a diferença, porque os grandes passos que a vida lhe proporciona, são os seus, é o de mais ninguém pode te supreender que nada tema aquele que acredita que a felicidade de si mesmo, estará sempre contigo, seja ela sua, ou até mesmo roubada, faça sempre de você, seu reflexo, faça de você mesmo, o seu proprio espelho, e acredite: " Você vai se encontrar".

Marcelo, prazer ter vc nesse mundo nosso.

Abração!

marcelo dalla disse...

Ei pessoal!!! Não fui eu quem escreveu, foi o Rubem Alves! (rsrsrs) mas falando sério, obrigado pelo carinho de vcs, é um grande prazer compartilhar boas informações e textos sensíveis como este. Fiquei muito feliz com o comentário de vcs. bjos e abraços

Marise Catrine disse...

Marcelo,

Que belo texto este e que grandes influências literárias que ele contém (Fernando Pessoa, Alberto Caeiro...).
Mas é um facto. Muito poucos têm a capacidade de saber escutar e mesmo quando se escuta há uma enorme tendência para "minar" esse som com a nossa própria voz e as nossas opiniões. O que nos leva à célebre frase que nos recorda que, por vezes, um silêncio vale mais que mil palavras.

*****

Shin Tau disse...

Acho esse texto de uma veracidade que tenho de deixar a minha opinião e experiência.

Apercebi-me pela primeira vez dessas pessoas que não nos escutam, na faculdade quando falava com uma amiga de quarto. E sempre que olhava para ela parecia que a aborrecia com a minha conversa, mas quando lhe perguntava ela negava, então eu continuava. Depois apercebi-me que havia pessoas que estavam mesmo à espera que eu me calasse para dizerem o que querem, muitas vezes que nem tem a ver com o tema que se está a falar. A primeira coisa que fiz foi olhar para dentro e ver se eu era assim com os outros, apercebi-me que não, que muitas pessoas me escolhiam como ouvinte pois eu ouvi na verdade com silêncio. Ainda hoje tento fazer isso, por exemplo, quand entro num blogue e vou ler qualquer coisa que ache interessante, ponho todas as minhas ideias sobre o assunto de lado e olho para aquilo cmo se fosse a primeira vez. No fim, vejo o que é interessante e o que entra em conflito com as minhas próprias ideias, depois sai sempre algo novo desse cruzamento.

É importante olhar para as coisas como se fosse a primeira vez e ouvir o mundo também! Além disso, quando não temos paciência para a conversa (pois isso acontece!) devemos ser honestos e dizer que não nos paetece ouvr aquilo! Quanta conversa polui a nossa alma? Que temas nos invadem o espírito e nos deixam embrulhados nesta ilusão que é o mundo de hoje?
Por isso eu escolho bem os sítios onde vou conversar e as pessoas que oiço!

Bem, Marcelo, esse tema mexeu mesmo comigo, já pareço uma dessas tagarelas que estava à espera para falar rkrrkrkrkrkrk

Beijoca e obrigada

Angélica lins disse...

Tenho caminhado para meu silêncio de alma...
Um dia eu chego!
Estive aqui.
Gostei muito do que li.

Abraço!

T@CITO/XANADU disse...

É possível escrever um "tratado", sobre a eloqüência do silêncio...
Tão imbuído de significado, e nele que estão as palavras que esperamos ouvir no escuro.
Muito bom!
Tácito

marcelo dalla disse...

Pois é, Shin Tau, eu percebo isso nas pessoas. ãs vezes percebo isso em mim tb. Todos querem falar e esperam sua vez com ansiedade. Muitas vezes até interrompem o outro. Não saber ouvir é uma armadilha do ego. bjossss

IdoMind disse...

Estou muito contente, finalmente um homem ouviu-me... ! lol
O meu comentário nas malidicências referia-se àqueles que as ouvem. Como disse um grande génio : O problema não é o mal existir, mas nós permitirmos que o mal exista...

De qualquer modo este seu post põe a descoberto os desiquilibrios que conduzem ao fracasso que tantos relacionamentos humanos.A verdade é que não sabemos ainda quando falar e quando calar.Pior é não sabermos que só aprenderemos isso quando silenciarmos o barulho do mundo e NOS escutarmos.

Belos posts
IdoMind

Palavras de Osho disse...

Também sou fanzaço de Rubem Alves. Tem um livro dele que se não me engano chama-se Tempus Fugit. Marcou minha infância ...

Elaine Duarte disse...

Olha o Blog do Marceo bombando!! Que luxo!!

Beijos...

Fatima disse...

Marcelo querido!
Quarta-feira vc vai estar no António?
"Prepare seu coração pras coisas que eu vou falar"!
Bjs.

Whesley Fagliari dos Santos disse...

Olá amigo Marcelo,

Passei por aqui para dizer-te que acabei de publicar o seu mimo lá no Sofia... Aproveito para agradecer-te novamente com todo o meu coração, muito obrigado!

Luz e paz!

Com carinho imenso,
Whesley

Zeca Maurício disse...

O silêncio... escutar... ótimo exercício para dominar o ego. Excelente texto. Viva Rubem Alves! Abraço.

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