VOI CHE SAPETE – O Despertar do Desejo na Ópera de MOZART


Uma das árias mais conhecidas e tocantes de As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart, é Voi che sapete, interpretada pelo personagem Cherubino — um adolescente inquieto, confuso, tomado por um turbilhão de sentimentos que ele ainda não sabe nomear. Essa ária revela o momento em que ele, com ingenuidade e emoção, tenta descrever o que sente ao estar apaixonado pela primeira vez.

A peça é tocante por sua simplicidade melódica e pela delicadeza com que expressa um sentimento universal: a descoberta do amor. Mozart, com sua genialidade incomparável, traduz em música o desabrochar da sensibilidade juvenil, numa combinação perfeita entre letra, melodia e contexto dramático.

Curiosamente, Cherubino é um papel escrito para uma cantora mezzo-soprano. Era (e ainda é) uma prática comum na ópera que personagens adolescentes do sexo masculino sejam interpretados por mulheres, por questões técnicas: nessa fase da vida, a voz dos meninos passa por transformações que inviabilizam sua participação em repertórios líricos. São os chamados travesti roles, e Cherubino é um dos mais célebres da história operística.

As Bodas de Fígaro (Le Nozze di Figaro) estreou em 1786 e é considerada uma das obras-primas do repertório mozartiano. O libreto, escrito por Lorenzo da Ponte, é uma adaptação da comédia de Beaumarchais, uma crítica sutil e espirituosa à aristocracia da época, recheada de jogos de poder, desejos escondidos e reviravoltas amorosas.

Nesta ária, Cherubino canta para a Condessa — por quem está secretamente apaixonado — e, ironicamente, a própria cena carrega um subtexto sensual e provocador: uma mulher (cantora) interpretando um jovem rapaz, que por sua vez declara sua paixão por outra mulher em cena. Essa sobreposição de gêneros e desejos é uma das camadas simbólicas que fazem da ópera um território tão rico em nuances.

Compartilho abaixo uma belíssima interpretação de Voi che sapete com a soprano Christine Schäfer, no Festival de Salzburg de 2006.



🎼 Letra original e tradução

VOI CHE SAPETE
de Le Nozze di Figaro – Mozart / Da Ponte

Letra em italiano:
Voi che sapete che cosa è amor,
Donne, vedete s’io l’ho nel cor.
Quello ch’io provo vi ridirò,
E per me nuovo, capir nol so.
Sento un affetto, pien di desir,
Ch’ora è diletto, ch’ora è martir.
Gelo e poi sento l’alma avvampar,
E in un momento torno a gelar.
Ricerco un bene fuori di me,
Sospiro e gemo senza voler,
Palpito e tremo senza saper,
Non trovo pace notte né dì,
Ma pur mi piace languir così.
Donne, vedete s’io l’ho nel cor.

Tradução:
Senhoras, vós que sabeis o que é o amor,
dizei-me se eu o tenho no coração.
Aquilo que sinto, digo-vos,
é novo para mim, não sei compreendê-lo.
É um sentimento cheio de desejo,
que ora é prazer, ora é martírio;
gelo e depois sinto que a alma está a arder,
e num momento, volto a gelar.
Procuro um bem fora de mim,
não sei quem o tem, não sei o que é.
Suspiro e gemo sem querer,
palpito e tremo sem saber,
não tenho paz nem de noite nem de dia,
e, no entanto, gosto de assim padecer.
Senhoras, vede se eu tenho isso no meu coração.

4 Comentários

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  1. Eu também gosto muito dessa ária, um verdadeiro hino à descoberta do amor na juventude.Depois de A Flauta Mágica, a ópera do Mozart mais encantadora com certeza é As Bodas de Fígaro.
    Parabéns pela diversidade de assuntos tão fascinantes em seu blog.

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  2. Rodrigo!!!! Que bom que gostou, fiquei feliz com seu comentário. ou completamente apaixonado pela música de Mozart. Definitivamente ele não era desse mundo.
    Agradeço a gentileza, seja sempre bem vindo!!!
    abraço

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  3. Também gosto muito dessa ária do Mozart. Depois de A Flauta Mágica, As Bodas de Fígaro é a ópera daquele grande gênio que eu mais aprecio. Tem algo de angelical nas composições dele, uma certa lembrança de que no fundo somos todos eternas crianças, como ele foi.
    Parabéns pelo seu blog e pelas belas criações digitais, que são aliás, muito inspiradoras.

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  4. Adoro essa ária, gostei muito de ver a tradução.

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