Meditação Pode Não Ser o Que Você Pensa

Mulher meditando em ambiente interno com piano, simbolizando recolhimento, sensibilidade, criatividade e prática meditativa no cotidiano.

Entenda mitos, estágios, dimensões espirituais e uma prática simples para integrar ao dia a dia.

Muitas pessoas dizem que não conseguem meditar. Afirmam que a mente não para, que os pensamentos se atropelam, que o corpo se inquieta, que falta concentração ou tempo. Em geral, essa dificuldade não nasce da prática em si, mas da ideia equivocada do que meditar deveria ser. Criou-se, ao longo do tempo, uma imagem idealizada da meditação como um estado imediato de silêncio absoluto, paz contínua e ausência total de pensamentos. Quando essa expectativa não se confirma, surge a frustração e, com ela, o abandono da prática.

A meditação, no entanto, não começa no silêncio, começa no encontro com o ruído. Ela não exige uma mente vazia, exige presença. Exige disposição para observar, com honestidade, o funcionamento da própria mente, do corpo e das emoções. Em vez de afastar pensamentos à força, a prática convida a reconhecer como eles surgem, se encadeiam e se dissolvem. O silêncio profundo existe, é real e transformador, mas ele é consequência de um processo, não um ponto de partida.

Outro equívoco comum é imaginar que meditar exige condições especiais: um ambiente perfeito, muito tempo disponível, postura rigorosa ou um estado emocional elevado. Essa crença afasta justamente quem mais se beneficiaria da prática. A meditação não é uma fuga da vida cotidiana, nem um luxo reservado a poucos. Ela se constrói aos poucos, no meio da vida real, com suas distrações, limitações e imperfeições.

Este texto não pretende ensinar técnicas, nem propor fórmulas prontas. A proposta aqui é revisar algumas ideias que costumam bloquear a prática, compreender melhor o que a meditação é — e também o que ela não é — e recolocá-la em seu lugar essencial: uma prática simples, profunda e possível, que se desenvolve com tempo, constância e menos expectativa do que se imagina.

Pessoa meditando em cenário xamânico na floresta, simbolizando conexão com a natureza, ancestralidade e espiritualidade indígena.

Esvaziar a mente: meta avançada, não ponto de partida

Uma das ideias mais difundidas sobre meditação é a de que ela consiste em “esvaziar a mente”. Essa afirmação não é falsa, mas costuma ser mal compreendida. Em tradições contemplativas como o budismo, o aquietamento profundo da mente é, de fato, um estágio real e possível da prática. Há níveis de absorção meditativa nos quais o pensamento discursivo se dissolve e a consciência repousa em silêncio pleno. Esse estado existe, transforma e marca profundamente quem o vivencia.

O equívoco surge quando esse estágio avançado é tratado como exigência inicial. Ao tentar “parar de pensar” logo no começo, a pessoa entra em conflito com o funcionamento natural da mente e passa a medir a meditação pelo fracasso. Pensamentos surgem, o silêncio não vem, e a prática é abandonada com a sensação de incapacidade. Nesse caso, não é a meditação que falha, mas a expectativa.

A mente não se aquieta por imposição. O silêncio verdadeiro não nasce do controle, mas da observação contínua. Antes de se tornar vazia, a mente precisa ser vista. O primeiro contato com a prática costuma revelar justamente o excesso de ruído, distração e automatismo mental que normalmente passam despercebidos no cotidiano. Esse reconhecimento não é um erro do caminho, é o início dele.

Com o tempo, à medida que a atenção se estabiliza e a identificação com cada pensamento diminui, a atividade mental se rarefaz naturalmente. O “esvaziamento” acontece como consequência de um processo de amadurecimento da consciência. Não é ausência de vida interior, mas um estado de receptividade profunda, no qual a mente deixa de interferir compulsivamente e passa a servir como canal.

A prática da meditação pode ser compreendida como uma escada sutil, em que cada degrau tem sua função. Já escrevi em outro momento sobre esses estágios, mostrando como o silêncio profundo surge gradualmente, a partir da observação do ruído mental, do contato com o vazio e da abertura do campo espiritual. Entender essa progressão ajuda a retirar da prática um peso desnecessário e a recolocar a meditação em seu lugar real: um caminho, não uma performance.

Mulher meditando sobre o planeta Terra, simbolizando expansão da consciência, espiritualidade universal e conexão entre indivíduo e coletivo.

Por que achamos que não conseguimos meditar

A sensação de incapacidade diante da meditação raramente tem origem pessoal. Na maioria dos casos, ela é resultado direto do modo como fomos condicionados a funcionar. Vivemos em uma cultura orientada para o estímulo constante, para a produtividade contínua e para a atenção fragmentada. Desde cedo, aprendemos a ocupar cada intervalo com informação, imagens, sons e tarefas. O silêncio, em vez de familiar, tornou-se estranho. A ausência de estímulo passou a ser confundida com vazio, tédio ou perda de tempo.

Quando alguém se senta para meditar, esse condicionamento se revela de forma crua. A mente, acostumada a reagir a estímulos externos, começa a produzir seus próprios ruídos. Pensamentos se intensificam, inquietações aparecem, o corpo pede movimento. A impressão é de que “piorou”, quando na verdade apenas se tornou visível o que sempre esteve ali. A prática não cria o caos mental, ela o expõe.

Outro fator importante é a expectativa de resultado. Muitas pessoas se aproximam da meditação esperando relaxamento imediato, bem-estar contínuo ou algum tipo de experiência especial. Quando isso não acontece, surge a frustração. No entanto, a meditação não é uma técnica de recompensa rápida. Ela trabalha em camadas profundas, reorganizando gradualmente a relação com a mente, com o corpo e com o tempo. Os efeitos mais consistentes costumam ser sutis no início e cumulativos ao longo da prática.

Há ainda a ideia de que meditar exige uma concentração extraordinária, algo reservado a pessoas naturalmente calmas ou “espiritualizadas”. Essa crença cria uma barreira desnecessária. A concentração não é pré-requisito, é consequência. Ninguém começa meditando bem. Aprende-se a meditar meditando, com a mente que se tem, no corpo que se tem, na vida que se vive.

Entender esses condicionamentos ajuda a desmontar a narrativa do fracasso pessoal. Não conseguir meditar, no início, não é sinal de incapacidade. É sinal de contato honesto com a própria realidade interna. A partir daí, a prática deixa de ser uma cobrança e passa a ser um processo de aprendizagem gradual, possível e profundamente transformador.


Mulher meditando em cenário simbólico com templo ao fundo, representando equilíbrio interior, contemplação e espiritualidade atemporal.

Meditação não é um estado especial, é um treino de atenção

Meditar não é entrar em outro mundo, é aprender a estar inteiro neste. A base da meditação é a atenção. Atenção ao corpo, à respiração, às sensações, aos pensamentos, às emoções. Não para controlá-los, mas para percebê-los com clareza. Esse treino de atenção reorganiza, pouco a pouco, a forma como nos relacionamos com a experiência. Em vez de sermos arrastados automaticamente por cada estímulo interno ou externo, aprendemos a observar antes de reagir.

Essa mudança é sutil, mas profunda. A atenção sustentada cria espaço entre o estímulo e a resposta. Nesse espaço, surge a possibilidade de escolha. É aí que a meditação começa a se traduzir em vida prática: menos impulsividade, mais discernimento, maior sensibilidade aos próprios limites e aos sinais do corpo e da mente.

Não se trata de manter atenção perfeita ou contínua. A mente se dispersa, e isso faz parte do processo. O exercício não está em evitar a distração, mas em perceber quando ela acontece e retornar, com gentileza, ao ponto de apoio escolhido. Cada retorno fortalece a presença. Cada distração percebida é, paradoxalmente, um momento de consciência.

Quando a meditação é compreendida como treino, e não como performance, a relação com a prática muda. Sai a cobrança por resultados imediatos, entra a constância. Sai a comparação, entra o processo pessoal. A atenção treinada no silêncio começa, naturalmente, a se estender para a vida diária, influenciando escolhas, relações e a forma de habitar o tempo.

Mulher meditando em ambiente interno, com fones de ouvido, simbolizando recolhimento, silêncio mental e prática meditativa no cotidiano.

Pensamentos, distrações e impaciência fazem parte do caminho

Depois que a pessoa começa a meditar, surge um novo obstáculo: o julgamento sobre a própria experiência. Pensamentos aparecem, o corpo se mexe, a atenção oscila, e rapidamente surge a ideia de que “não está funcionando”. Esse julgamento é, muitas vezes, mais perturbador do que a própria agitação mental.

A prática não se aprofunda quando eliminamos distrações, mas quando deixamos de lutar contra elas. Pensamentos, sensações e emoções não interrompem a meditação; eles são o material da observação. O problema não é a mente se mover, é a impaciência com esse movimento.

Outro ponto comum é a expectativa de progresso linear. A pessoa imagina que, com o tempo, a prática ficará sempre mais fácil, mais silenciosa, mais agradável. Na realidade, a meditação aprofunda a sensibilidade, e isso inclui momentos de desconforto, inquietação e confronto interno. Esses períodos não indicam retrocesso, mas refinamento da percepção.

Persistir na prática exige menos esforço e mais honestidade. Aceitar o que aparece, sem romantizar nem rejeitar, cria uma base sólida. É essa relação madura com a experiência que sustenta a meditação ao longo do tempo, muito mais do que qualquer técnica específica.

Pessoa meditando aos pés do Cristo Redentor, representando conexão espiritual, fé e meditação como prática universal.

Afinal, por que praticar meditação?

A meditação é praticada por muitos motivos, e reduzi-la a uma única finalidade é um erro comum. Para alguns, ela começa como um exercício de atenção e organização mental. Para outros, como uma ferramenta terapêutica. Para muitos, é um caminho espiritual propriamente dito. Essas dimensões não se excluem, elas se aprofundam.

No campo terapêutico, a meditação atua como um processo de reorganização interna. Ao aquietar o ruído superficial da mente, conteúdos emocionais emergem com mais clareza, padrões se revelam, tensões antigas podem ser reconhecidas e elaboradas. Por isso, tantas abordagens contemporâneas de cuidado emocional, corporal e energético incorporam práticas meditativas como parte essencial do processo de cura. Meditar, nesse contexto, não é buscar paz imediata, mas criar espaço para que o que precisa ser visto possa emergir e ser integrado.

No plano espiritual, a meditação é um método de refinamento da consciência. Ela amplia a sensibilidade, fortalece a intuição e favorece estados de percepção mais sutis. Em muitas tradições, é por meio da meditação que se estabelece contato com dimensões espirituais, guias, mentores, campos simbólicos ou estados ampliados de consciência. Não se trata de fantasia, mas de uma experiência interior progressiva, que exige preparo, constância e discernimento.

Há ainda práticas meditativas voltadas à cura energética, à harmonização dos corpos sutis, à oração contemplativa, à visualização criativa, às jornadas xamânicas, à repetição de mantras, ao movimento consciente, à dança ritual, à respiração e ao silêncio profundo. Cada uma atua de forma específica, acessando camadas diferentes do ser. Não existe “uma” meditação, mas muitas formas de meditar, conforme o objetivo, a tradição e o momento de vida.

Por isso, praticamos meditação não para alcançar um estado idealizado, mas para nos tornarmos mais inteiros. Para compreender melhor nossos processos, sustentar estados de cura, aprofundar a escuta espiritual e alinhar mente, corpo e alma. A prática não nos afasta da vida, ao contrário, nos ajuda a habitá-la com mais consciência, sentido e presença.

Para quem deseja compreender melhor essa diversidade de caminhos, já tratei desse tema em outro texto aqui no blog, onde apresento diferentes tipos de meditação e suas finalidades, mostrando como cada prática responde a uma necessidade específica da jornada de consciência.

Mulher meditando em meio à vegetação tropical, simbolizando integração entre consciência, natureza e vitalidade.

Uma prática simples para começar (e continuar)

A meditação se sustenta menos por técnica e mais por regularidade. O primeiro passo é escolher um momento possível do dia, não o ideal. Para algumas pessoas, isso significa acordar alguns minutos mais cedo. Para outras, aproveitar o silêncio da noite, quando a casa já dormiu. Há quem medite antes do banho, no intervalo do trabalho ou em qualquer pequeno espaço de recolhimento. O importante não é o horário perfeito, mas a constância.

Sente-se de forma confortável, sem rigidez. Não é necessário adotar posturas complexas. Basta que a coluna esteja ereta, permitindo que a respiração flua com naturalidade. Os olhos podem permanecer fechados ou semicerrados. Não há nada a forçar.

Leve a atenção para a respiração. Inspire e expire sem controlar, apenas acompanhando o movimento do ar. Quando pensamentos surgirem, e eles surgirão, não tente afastá-los. Perceba-os e retorne, quantas vezes for necessário, à respiração. Esse retorno é a prática.

Meditar não é fazer algo extraordinário, é interromper, por alguns minutos, o automatismo. É sair do passado e do futuro e habitar o instante presente. Mesmo um minuto já é suficiente para iniciar esse movimento. Com o tempo, a prática se aprofunda sozinha.


Mulher meditando na praia, associando meditação, descanso, presença e equilíbrio emocional.

Meditação em diferentes contextos e paisagens

A prática da meditação não está condicionada a um único ambiente nem a um cenário ideal. Ao longo da história, seres humanos meditaram em templos, florestas, desertos, montanhas, cidades, cavernas e dentro de casa. O que muda não é a essência da prática, mas a forma como o ambiente dialoga com o estado interno.

Meditar na natureza, por exemplo, favorece naturalmente o aquietamento, pois os ritmos naturais ajudam a desacelerar o pensamento e a ampliar a percepção sensorial. O contato com água, árvores, vento e silêncio amplia a sensação de pertencimento ao todo e facilita estados contemplativos mais profundos. Já a meditação em ambientes urbanos, embora mais desafiadora, pode ser igualmente potente. Ruídos, movimento e estímulos tornam-se parte do treino de presença, ajudando a sustentar a atenção mesmo em meio à dispersão.

Em casa, a prática tende a ganhar intimidade e continuidade. É ali que se constrói o hábito, que se atravessam dias bons e dias difíceis, que a meditação deixa de ser evento e passa a ser parte da vida. Nenhum desses contextos é superior ao outro. Cada paisagem oferece um tipo de aprendizado.

O ponto central é compreender que o ambiente funciona como suporte, não como condição. A prática se aprofunda quando aprendemos a meditar não apenas onde é fácil, mas também onde a vida acontece. Assim, a meditação deixa de depender do cenário ideal e passa a acompanhar o praticante em diferentes momentos, espaços e fases da jornada.

Homem meditando em ambiente interno com vista urbana, simbolizando a prática meditativa integrada à vida moderna.

Meditação Ilustrada: arte, cotidiano e consciência

Houve um período em que a meditação foi um tema recorrente aqui no blog. Dessa fase nasceu o projeto Meditação Ilustrada, no qual convidei amigos e parceiros para compartilhar práticas, reflexões e vivências meditativas, sempre acompanhadas por ilustrações autorais criadas especialmente para cada postagem.

A proposta era simples, mas profunda: mostrar que a meditação não pertence a um único discurso, tradição ou estética. Cada ilustração trazia um personagem, um cenário e uma atmosfera distintos, enquanto a postura meditativa permanecia a mesma. A forma mudava, o centro permanecia. Isso refletia exatamente o espírito do projeto: a prática como algo essencial, adaptável e vivo, que atravessa culturas, linguagens e contextos.

Revisitar esse projeto hoje é reconhecer que a meditação não precisa ser solene, rígida ou distante. Ela pode ser sensível, criativa, simples e profundamente integrada à vida. Talvez esse seja um dos seus maiores ensinamentos: a prática não se separa de quem somos, ela se expressa através de nós.

Homem meditando diante de templo oriental, representando espiritualidade, tradição e estados ampliados de consciência.

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Pessoa meditando à noite com paisagem urbana ao fundo, simbolizando introspecção, foco e observação da mente.


Família meditando junta em ambiente doméstico, simbolizando consciência compartilhada, presença e educação emocional.

7 Comentários

Deixe seu comentário. Suas reflexões e sugestões são um grande estímulo para este trabalho. Agradeço!

  1. Aquietar a mente...ouvir o silêncio.

    Bjo!

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  2. Não seguir os pensamentos....
    Atenção no presente!
    Vou tentar!
    Grata pela Música e texto!

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  3. Realmente você tem postados coisas, que fazem a diferença. Obrigada !

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  4. Ainda não entendo, a primeira vez que meditei eu me senti flutuar, nas outras vezes, tentei sentado na cama em cima do travesseiro pra dar estabilidade, tentei na cadeira várias vezes e nunca mais consegui. Não sei se é a ansiedade pelo conhecimento da vida ou outra coisa.

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  5. que pena, a música está mais alta que a voz dele, tentei em vários computadores mas não dá para ouvir bem o que ele fala...

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