De 1918 para 2012: O Soneto de Meu Avô que Virou Samba


Quero compartilhar uma história linda, daquelas boas surpresas que a vida reserva. Meu avô paterno, João Pinto de Souza, foi jornalista e dono de uma tipografia em Itajubá (MG). No início do século passado, editava um jornal chamado A Verdade.

Em 1977, já décadas depois, meu avô presenteou seu filho — meu tio João Valdo — com um pequeno livro de sonetos intitulado Versos Tristes. Era uma cópia que guardava desde 1918, ano em que havia publicado a obra. Até então, meu tio jamais desconfiara da existência daqueles versos.

O Resgate dos Versos Esquecidos

Pois bem, no Natal de 2012, João Valdo presenteou sua filha — minha prima Ana Luiza, que também jamais soubera dos versos do avô — com uma fotocópia do pequeno livro. Presenteou-me também. Eu, muito menos, nunca imaginei que meu avô fosse poeta.

Para nossa surpresa, o músico e compositor Luis Felipe Gama, parceiro de Ana Luiza, transformou um dos sonetos em samba. A canção foi gravada pelo cantor Luis Guilherme. Eis o soneto e a música:

FRANQUEZA
soneto de João Pinto de Souza musicado por Luis Felipe Gama

Não me queres ouvir nem um instante
E dizes que só tenho antipathia.
Está bem, seja assim, mulher radiante,
- Symbolo da belleza e galhardia!

Entretanto, senhora, de hoje em diante,
Não vou viver isento de alegria,
Nem hei de ser qual desolado amante
Que vive a lamentar-se noite e dia.

Não o nego, sou feio realmente;
Não possuo sublimes predicados,
Nem fortuna tão pouco, infelizmente.

Possuo, ó linda flôr dos meus cuidados!
Um coração que sabe, felizmente,
Rir e zombar de amôres simulados!



Quase um Século Depois

Que lindo resgate! Fiquei encantado com essa história. Salve João Pinto de Souza! Quase cem anos depois, um soneto de meu avô ganhou nova vida ao ser musicado.

Naquela semana, ele foi apresentado pela primeira vez no Teatro Nacional de Brasília, na voz de Luis Guilherme, com o duo Luis Felipe Gama e Ana Luiza. Um encontro de gerações, de poesia e música.


O Trabalho de Luis Felipe Gama e Ana Luiza

Aproveito para apresentar o belíssimo trabalho do duo Luis Felipe Gama e Ana Luiza, parceria chamada O Vento, ativa desde 1994. Música brasileira de primeiríssima qualidade, com quatro álbuns lançados: Luiz Felipe Gama e Ana Luíza (Dabliú Discos), Linha D’Água (Guanabara Records), Entrelaço e Vermelho (Selo Cooperativa), todos produzidos por Luis Felipe Gama.

Ao longo da trajetória, já dividiram concertos e gravações com Chico Buarque, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Elba Ramalho, Alcione e Dominguinhos. Como já foi dito sobre eles: “O duo revela, numa união emocionada de excelência e poesia, uma sonoridade moderna, lírica e cortante, seja em sua obra autoral, seja na leitura de temas de outros compositores.”

A dupla está disponível no Spotfy — e eu recomendo demais!

5 Comentários

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  1. Oi Marcelo!
    Uma beleza de postagem e uma raridade de soneto.
    A decisão de não sofrer por amor é uma sabedoria imensa e descrito com tamanha sensibilidade que arrepia...
    DNA de Poeta!

    Muito samba e semba pra ti meu amigo!
    Feliz Carnaval!!!!!!!!!!

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  2. Belíssimo, encanta por vários motivos, poeta escondido num antepassado, por tanto tempo guardado e pela beleza e verdade descritas com tanto agrado.

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  3. Marcelo,

    que beleza isso! Uma família de artistas :-)

    beijos, beijos!

    Dani

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  4. E tudo um dia se revela! que linda história! parabéns a familia por preservar a história.

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