Sempre me relacionei com a fé de forma ambígua. Como geminiano, trago uma mente curiosa, questionadora e essencialmente racional, que observa, compara, duvida e busca compreender antes de aceitar. Ao longo da vida, esse traço me colocou muitas vezes em confronto com discursos espirituais prontos, explicações fáceis e verdades absolutas. A dúvida, para mim, nunca foi simples negação, mas parte do próprio movimento de investigação e aprendizado.
Por muito tempo, a razão pareceu suficiente. Questionar, analisar e desconstruir ofereciam segurança e sensação de controle. Ainda assim, havia algo que escapava ao pensamento lógico. Experiências, crises, encontros e atravessamentos mostraram que nem tudo se resolve apenas no plano mental. A busca por sentido começou a se impor não como crença herdada, mas como necessidade interna de compreender a vida para além do visível e do imediato.
Este texto não é uma defesa de sistemas religiosos, dogmas ou verdades espirituais fechadas. É uma reflexão sobre o percurso entre crer e duvidar, entre confiar e questionar, entre razão e experiência. A fé, aqui, não aparece como ponto de partida, mas como construção ao longo da jornada, amadurecida pelo confronto com limites, pela escuta interior e pela disposição de rever certezas.
Fé não como certeza, mas como processo
A fé costuma ser confundida com certeza, com respostas prontas ou convicções inabaláveis. Muitas vezes, ela é apresentada como adesão automática a sistemas religiosos, doutrinas espirituais ou narrativas que prometem segurança diante do desconhecido. No entanto, esse tipo de fé rígida pouco dialoga com a complexidade da experiência humana e tende mais a proteger o ego do que a ampliar a consciência.
Quando associada ao dogma, a fé deixa de ser caminho e se transforma em limite. O dogma oferece conforto, mas cobra obediência. Ele dispensa questionamento, reduz o espaço da dúvida e transforma o mistério em verdade fechada. Nesse sentido, não fortalece a espiritualidade, apenas a cristaliza.
A fé, compreendida como processo, nasce da experiência vivida. Ela se constrói ao longo do tempo, atravessando crises, revisões internas e mudanças de perspectiva. Não exige negação da razão, mas diálogo com ela. Questionar, errar, revisar crenças e reformular sentidos faz parte do amadurecimento espiritual.
Mais do que acreditar, a fé amadurecida envolve confiança. Confiança na vida, nos ciclos, na possibilidade de aprendizado mesmo diante da dor ou da incerteza. Essa confiança não elimina o medo nem garante resultados, mas sustenta o caminhar quando não há respostas claras. Nesse ponto, fé deixa de ser certeza absoluta e passa a ser disposição interna para seguir, aprender e crescer.
Espiritualidade e cura: além do sintoma
Quando falamos em cura, é comum que o pensamento se volte imediatamente para o corpo e para a eliminação de sintomas. A doença aparece como algo a ser combatido, corrigido ou removido o mais rápido possível. No entanto, sob uma perspectiva espiritualizada, a cura raramente se limita a esse nível. Ela envolve consciência, escolhas, padrões emocionais e a forma como a pessoa se relaciona com a própria vida.
Isso não significa negar a medicina, os tratamentos ou os cuidados objetivos com o corpo. Significa reconhecer que, muitas vezes, o sintoma é apenas a superfície de processos mais profundos. Emoções não elaboradas, crenças rígidas, repetições de comportamento e conflitos internos podem se manifestar fisicamente, não como punição, mas como linguagem do corpo e da psique. A doença, nesse sentido, pode funcionar como um sinal de desequilíbrio e um convite à revisão.
É importante afastar qualquer leitura moralista ou culposa. A ideia de que alguém “adoece porque merece” ou “porque não evoluiu o suficiente” é simplista e violenta. A espiritualidade madura não opera por castigo, mas por aprendizado. A jornada da alma não é linear, nem justa nos moldes humanos. Cada experiência carrega camadas de sentido que nem sempre se revelam de imediato.
Pensar a cura além do sintoma é compreender que ela envolve integração. Corpo, mente, emoções e valores precisam dialogar. Em muitos casos, curar não é eliminar completamente a dor, mas transformar a relação com ela, ampliar a consciência sobre si mesmo e fazer escolhas mais alinhadas com o próprio processo. A fé, aqui, não promete resultados automáticos, mas sustenta a disposição de atravessar o caminho com mais lucidez, presença e responsabilidade. Já escrevi mais sobre isso aqui no blog, recomendo a leitura: O Que É Cura? Corpo, Consciência e o Caminho de Quíron.
Reforma íntma: fé como coerência interna
Quando falamos em fé, geralmente pensamos em acreditar que algo externo irá agir a nosso favor. Mas a fé, vivida de forma profunda, não se sustenta sem coerência interna. Crer não é apenas esperar que algo mude, é alinhar escolhas, atitudes e disposições internas com aquilo que se deseja transformar. Nesse sentido, fé e responsabilidade caminham juntas.
Não há fé viva sem transformação, porque confiar verdadeiramente na vida implica disposição para rever padrões. Não se trata de punição, sacrifício ou cobrança espiritual, mas de congruência. Desejar cura, equilíbrio ou amparo exige abertura para mudar aquilo que sustenta o desequilíbrio. Quando não há essa disposição, a fé se reduz a expectativa passiva.
Muitas vezes, o discurso espiritual se apoia na esperança, mas o comportamento cotidiano permanece intacto. Espera-se o milagre mantendo os mesmos ressentimentos, os mesmos medos, as mesmas posturas defensivas. Nesse ponto, a fé perde força, porque não encontra espaço interno para se enraizar. Falta alinhamento entre o que se pede e o que se vive.
Fé, em sua expressão mais madura, é confiança ativa. Ela não garante resultados, mas sustenta escolhas difíceis, revisões internas e processos de amadurecimento. Quando a fé deixa de ser apenas crença e se torna coerência, a transformação deixa de ser promessa e passa a ser caminho.
Astrologia e jornada da alma
É nesse ponto que a astrologia se torna uma linguagem especialmente fértil para falar de fé. Não como crença cega no destino, mas como ferramenta de leitura da jornada da alma. O mapa natal não descreve o que “vai acontecer”, nem define quem a pessoa deve ser. Ele aponta temas recorrentes, desafios, potenciais e aprendizados que pedem consciência ao longo do tempo.
Dentro dessa perspectiva, a fé deixa de ser algo abstrato e passa a se relacionar com sentido. A jornada da alma não é linear, nem orientada apenas por conforto ou sucesso externo. Ela envolve atravessar experiências que ampliam a percepção de si, dos outros e da vida. Algumas fases pedem expansão, outras pedem contenção. Algumas pedem confiança, outras pedem revisão profunda de crenças que já não sustentam o crescimento.
A astrologia ajuda a reconhecer esses ciclos. Mostra onde insistimos em padrões conhecidos, mesmo quando já não funcionam, e onde a vida nos convida a confiar em algo novo, ainda não totalmente compreendido. Nesse sentido, fé não é ignorar o mapa, nem se submeter a ele, mas dialogar com os símbolos como quem escuta a própria história em camadas mais profundas.
Falar em jornada da alma é reconhecer que cada pessoa amadurece sua fé de maneira singular. Alguns aprendem pela expansão, outros pela perda. Alguns pela entrega, outros pela resistência. A astrologia não oferece garantias, mas amplia o entendimento do processo. Ela não substitui a experiência, mas ajuda a interpretá-la. E é justamente nessa interpretação consciente que a fé deixa de ser herança ou imposição e se transforma em construção viva, alinhada ao tempo, à escolha e à responsabilidade interior.
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Gostei muito deste post Marcelo. Temos que iluminar a sombra. A maioria das vezes queremos aniquilá-la... é preciso honestidade sim. E vontade.
ResponderExcluirbj
Sim, Vera!
ResponderExcluirMuitos dizem que querem destruir o ego... mas ele é parte necessária pro nosso processo de individuação. Mesma coisa com as nossas sombras... temos que identificá-las e aprender a lidar com elas... com amor! Eis o longo processo de crescimento...
bjosssssss
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