quinta-feira, 19 de abril de 2012

O TARÔ, NOSSA CRIANÇA FERIDA E A EDUCAÇÃO QUE RECEBEMOS DE NOSSOS PAIS


Olá amigos!
Hoje quero compartilhar um trecho de um livro excelente que estou lendo. Se chama CURSO DE TARÔ E SEU USO TERAPÊUTICO, de Veet Pramad (Ed. Madras). Já no ínício esse livro me cativou. O autor começa a contar a história de cada um de nós através dos arcanos maiores.

A lâmina do Louco seria o marco zero, quando estamos ainda em gestação, na barriga da mãe e todas as possibilidades são possíveis. Assim como mostra a carta, o bebê-louco chega maravilhado diante do desconhecido, livre de medos, preconceitos e bloqueios emocionais.

Depois o bebê vai mamar, relacionar-se, gritar de alegria, de fome ou de frio, chorar, descobrir pouco a pouco o que o rodeia, vai sair de seu espaço interior para agir no mundo exterior. Tudo isso é expressão do Mago, Arcano 1.

A Sacerdotisa, o Arcano 2, está relacionada às forças que levam o bebê à interiorização. São aqueles momentos em que este fica quieto, tranquilo, às vezes de olhos bem abertos como se enxergasse outro tempo, outras dimensões... talvez chupando o dedo, receptivo, compreendendo intuitivamente tudo o que acontece.

Enquanto manifesta essas polaridades, o bebê entra em contato com as regras, com o mundo concreto, dos desejos e das expectativas dos outros. Este contato acontece por intermédio dos pais que são a Imperatriz e o Imperador. Arcanos 3 e 4, respectivamente.

É aí que tudo começa a acontecer... os pais são os que mais influenciam a vida de cada um, pelo que fazem e pelo que deixam de fazer. A mãe/Imperatriz é a primeira que dá forma e limites a esse ser. Infelizmente a maioria das mulheres, devido ao sistema machista, se sente frustrada. Foram obrigadas a renunciar sua liberdade, à realização de seus sonhos para serem aceitas na sociedade. Muitas deixaram de lutar por sua felicidade e fizeram da renúncia um mérito que tem o aplauso das religiões. Isso gera uma raiva inconsciente que danifica sua capacidade de amar e as deixa sentindo rancor e desejo de vingança (inconsciente).

Quanto mais as pessoas reprimem seus impulsos naturais para obedecer as normas, mais se sentem ofendidas quando alguém não respeita essas normas e faz o que bem quer. Então, nas entrelinhas, a mãe diz ao filho: "Eu renuncio, eu me humilho e obedeço, você tem de fazer a mesma coisa. Você não pode ser livre, feliz, nem receber amor, assim como eu não sou livre, não sou feliz, nem me sinto amada."

Mas se o bebê é correspondido amorosamente, seu nível de satisfação aprofunda-se, sente-se nutrido em outros níveis sutis e se afirma em seus direitos básicos, que são:
- O direito de existir, o direito à vida
- O direito de ter suas necessidades básicas de alimento e amor satisfeitas
- O direito de ser independente, isto é, de se autoafirmar opondo-se aos seus pais
- O direito de querer, de se mobilizar, de se mobilizar para conseguir seus anseios de uma forma direta ou indireta.



No entanto, aceitar a criança tal como ela é, não significa falar sim a tudo. A criança não pode ser atendida em todos os seus caprichos. Aceitá-la significa valorizá-la e valorizamos aquilo a que dedicamos nosso tempo. Isso quer dizer usar nosso tempo para conversar, para mostrar-lhe as consequências de seus atos, para colocá-las em contato com a realidade, para passar-lhe nossa experiência, mas não para meter-lhe princípios morais que não são nossos, talvez até defasados.

Na maioria das vezes, a mãe não tem tempo ou amor suficientes. Seu tempo para conversar, informar, orientar, escutar, compartilhar momentos é substituído pelo ordenar, chantagear, ameaçar, premiar e castigar.  Quanto mais espontânea a criança é, pode ser mais desaprovada, invalidada, criticada e portanto, acaba sofrendo mais. Assim, acaba associando o ato de ser ela mesma com o "sofrer". Seu ser enfraquece, perde confiança em si mesma e no mundo, deixando de guiar-se pelos seus sentimentos. Perde o caminho do seu coração.

"Se você se comportar, vou comprar-lhe um chocolate".

O prazer que vem de dentro pode ser perigoso, pois pode trazer castigos. A criança se convence de que não merece esse tipo de prazer, que só merece outro que vem de fora e que é o resultado de adequar-se às expectativas. O adulto que assim foi programado tem dificuldades para escolher  atividades profissionais que lhe proporcionam prazer e sua vida se transforma num vaivém que vai de segunda à sexta, de uma atividade profissional desprovida de prazer, mas que lhe proporciona o dinheiro suficiente para, de sexta a domingo, comprar compensações e se divertir.

A criança fica carente de amor e aprovação e faz qualquer coisa para consegui-los: obedece ordens absurdas e contrárias à sua natureza, esconde suas emoções, aprende a fingir e a mentir. Fica achando que amar é obedecer, é agradar aos outros, é renunciar, sacrificar-se. Começa a pedir caprichos, bobagens, tudo o que a televisão e as vitrines lhe enfiam pelos olhos, já que não se atreve a pedir o que realmente está querendo e precisando: amor, contato e apoio.

Quanto ao pai/Imperador, este vai colocando suas ideias, seu ponto de vista, sua visão do mundo. Como a criança está carente, engole as palavras de seu pai sem mastigar, buscando sempre ser aceita. O que poderíamos dizer das qualidades dessas ideias, se durante séculos o homem para ser aceito teve de competir,  negar sua sensibilidade, esconder as emoções, envolver-ser em atividades que nada tinham a ver com sua essência, impor-se sobre os outros explorando-os, conformar-se com o pseudo-prazer das compensações, negar-se a si mesmo para encaixar-se nos moldes socialmente aceitos?

O homem também aceitou a frustração, embora tente mantê-la anestesiada com o poder e com o que o dinheiro compra. Em muitos casos ficou egoísta, estéril, covarde, rígido e babaca. O pai, quando não é omisso, mostra o caminho "certo", dá os objetivos "práticos" e deixa a criança "preparada" para a vida. O pai, com sua atitude, ajuda a justificar e possibilitar a existência dos exércitos e o falso progresso que destrói a natureza.

A criança nega suas percepções e prefere acreditar nas desculpas que seus pais dão pra ela. "É pelo seu bem", "dói mais em mim ter de castigar você", "não temos dinheiro". Assim a criança vai deformando sua visão da realidade, não dá mais valor ao que vê, à sua própria experiência, à sua própria verdade, à sua intuição, deixa de perceber os subtextos e acredita em tudo o que falam pra ela. Não só seus pais, mas os padres, os pastores, os professores, a propaganda, a televisão. Sua mente trabalha superficialmente, desconectada de emoções e instintos, passando despercebido o fundo das coisas. Deixa de questionar o que vê, vai abandonando esses ideais. Se não mudar, virará um cidadão incapaz de peneirar as informações.


Por meio do trabalho da Imperatriz e do Imperador, o Louco enfraqueceu seu Eu, perdeu sua espontaneidade e ficou com medo de tomar iniciativas e expressar suas próprias ideias. Já não sabe quem é, não acredita mais em si mesmo, pensa que não merece amor, perdeu seu entusiasmo, a capacidade de maravilhar-se com a vida e trancou seus instintos. Transformou-se num frustrado, num mendigo de atenção, ou num monstro incapaz de amar. Pode tentar ocultar todos essas traços, sem saber que tudo o que escondeu continua trabalhando internamente, até limites insuspeitos...

O Louco vai encontrar-se com o Hierofante, o arcano 5, que traz as doutrinas da sociedade e dá o toque final na falsa personalidade que a criança foi obrigada a adquirir. O Hierofante é o poder ideológico. São os fundamentos religiosos e filosóficos que ajudam a sustentar o poder econômico, o sistema, o Imperador. Em tempos passados o Hierofante morava no Vaticano. Hoje são os meios de comunicação que fabricam a informação e a pseudocultura massificada e massificante, anticriativa e idiotizante.

A criança e o adolescente podem aceitá-los ou, igualmente desligados de si mesmos, podem procurar os opostos numa revolta de forte caráter autodestrutivo. Para encobrir essa terrível sensação de medo, fraqueza, mediocridade, frustração e falta de amor, o jovem veste-se de orgulhoso, de especial, de invulnerável, de herói, de mártir... Já está pronto para ocupar um posto na sociedade, para ser um militar, um advogado, um político, um padre, um juiz, um bandido, um Zé Ninguém ou um Fulano de Tal, um número, um conjunto de rótulos... Já está civilizado, é uma ovelha no rebanho dos sem vontade própria, sem emoções aparentes, sem critérios próprios, sem um corpo próprio, já que até sua estrutura foi viciada com múltiplas tensões.

Mas...

Quando empurramos o pêndulo pra direita,  estamos criando uma força que levará o pêndulo para a esquerda, inexoravelmente. Quanto intensificamos um aspecto da realidade, estamos também fortalecendo o seu oposto. Quanto maior é a programação, também maior é a necessidade do resgate do ser verdadeiro. Ou seja, o ponto de maior robotização é o início da libertação.

"A confusão é uma grande oportunidade. O problema com as pessoas que não estão confusas é grande. Se você está realmente confuso, você está abençoado. Agora, alguma coisa é possível: você está no limiar".

Este é um resumo do início do livro citado acima e a história continua. O Louco viverá o dilema contido na carta dos Amantes (arcano 6) , pegará o Carro (arcano 7) rumo ao desconhecido... Pretendo continuar narrando essa história aqui pra vocês. É a nossa jornada!

Na astrologia, o asteróide Quíron - o curador ferido - traz as pistas de onde estão nossas frustrações, nossas rejeições mais profundas da infância. Quíron está entre Saturno e Urano, é a ponte entre os planetas pessoais e os planetas transpessoais. Ou seja, o resgate de nossa criança ferida é a porta para dimensões mais elevadas de nosso ser. A descoberta de Quiron aconteceu em 1977, junto com o boom das psicoterapias e terapias alternativas... Não foi por acaso.

Esse assunto dá muito pano pra manga. Vou parar por aqui, porque este post já vai longo, depois eu continuo. Sejamos felizes!

Pra quem quer conhecer-se através de seu mapa natal, detalhes aqui.
Pra quem quer saber sobre sua missão de vida, convido para o próximo evento: GRUPO DE ASTROLOGIA TERAPÊUTICA NO ANIMA MUNDHY. 
Mais sobre Quíron em QUÍRON - O CURADOR FERIDO

10 comentários:

Ezequiel Coelho disse...

É muito interessante (e profundo). Li até quase metade e comecei a encontrar alguma dificuldade em abarcar o processo que o autor propõe. Guardei-o para quando estiver melhor preparado.
Abraço e muito obrigado por este generoso espaço que nos ofereces.

AugustoCrowley disse...

Boa profundo nisso! Quantas coisas ainda estão interiorizadas, e fazem parte de atitudes que tomamos na vida adulta, sem perceber que vem dali, de toda essa influência sofrida na infância, quando éramos apenas um Louco entrando nesse mundo tão complexo e desafiador.

elda aveiro disse...

É maravilhoso este tarô! Descobri-o na net quando andava em busca de mim mesma e o que mais me aliciou é que se trata dum tarô que nos devolve a consciência de nós mesmos. Dá-nos a responsabilidade dos nossos atos! Mostra-nos aonde podemos melhorar, diz-nos como o fazer. É um raio-x ao nosso mundo interno! É muito desafiador para quem põe as cartas, porque não se trata só de meter cartas em cima da mesa, a Energia por detrás destas está antes de mais a tocar na "dor" de quem lê. Iluminando as aéreas que ainda precisam de cura! É um processo, muito grande para quem faz leituras pelo menos vejo-o como tal. Falando por mim, andei muito tempo com as cartas guardadas na gaveta, o medo era maior mas de tanto entrar e me aprofundar hoje consigo chegar mais facilmente à Essência de quem possa estar por este caminho a enveredar. Não é só dar, informação. Vai muito mais além! Decidi fazer por escrito, tal é a potência contida numa leitura destas. Notei que à presença a tendência é a pessoa fechar, os nossos mecanismos mentais são tão subtis que acabamos por contar a história que continuamos a repetir. A função não é essa, mas sim elucidar sobre aonde possa estar a a dificuldade em avançar e muito mais. Encontrei na escrita o meu dom revelador de pacificar a minha dor, de ir ao encontro da minha criança interior que no fundo é o grande objetivo deste tarô terapêutico. Levar-nos de volta ao nosso Eu perdido, e muitas vezes esquecido. Sermos nós mesmos! Para mim, é um tarô de VALORIZAÇÃO PESSOAL e tenho um fascínio muito GRANDE POR ESTAS CARTAS. SÃO LINDAS! Para mim, e faz-me todo o sentido. Agora! Porque antes o medo levou-me várias vezes ao chão :-)

lilith disse...

Encantada, Marcelo Dalla! Vou comprar esse livro. Obrigada pelo lindo texto.

MARCELO DALLA disse...

Ezequiel: Recomendo que leia, é muito importante.
Grato!

MARCELO DALLA disse...

Augusto: Pois é trata-se de cuidar de nossa criança ferida... fundamental pra quem está no caminho espiritual.
Grato!!!
Namastê

MARCELO DALLA disse...

Elda: que lindo depoimento!!!! Como te entendo, estou maravilhado com este livro!!!!
Gratíssimo por suas palavras.
Namastê

MARCELO DALLA disse...

Lilith: eu é que agradeço! :) Boa leitura!!!
bjo

LUARES DE LILITH disse...

Puxa Querido fiquei aqui matutando se não estou um tanto anestesiada e sobre como tratar causa. Senti tudo o que li como confuso (eu me senti) e complexo. Bom para refletir! Estou relendo Gente que mora dentro da gente - Patricia Gebrim, conhece? Acho uma boa proposta para olhar com mais carinho para a criança (s) que vivem dentro da gente. Beijo bem grande prá ti e as suas crianças... ;o)

Emanuel disse...

Veet Pramad é maravilhoso. É uma das minhas referências axiais. Caso não conheça, e deseje ir mais a fundo na iconografia do Thoth Tarot, recomendo o livro do Johann Heyss, delicioso de ler, também.
Abração!

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