Introdução: o desafio de definir magia
Falar de magia é enfrentar um terreno atravessado por séculos de projeções, ilusões e equívocos. A palavra já foi usada para descrever tudo o que a imaginação humana não compreendia, desde fenômenos naturais até rituais religiosos, passando por superstições populares, charlatanismo e fantasia literária. Carrega um peso simbólico que tanto fascina quanto distorce. Talvez por isso seja tão difícil chegar a uma definição limpa, precisa e honesta do que realmente significa praticar magia.
Hoje, em plena era da informação, o desafio é maior. Há quem trate magia como espetáculo, fuga ou ferramenta de poder pessoal. Há quem a reduza a truques, fórmulas prontas ou promessas de resultados rápidos. E há quem a rejeite por completo, justamente porque a confunde com ilusão, manipulação ou superstição. Em ambos os extremos, perde-se algo essencial: a magia como um estudo sério da consciência, da intenção e da relação entre mente, energia e realidade.
Definir magia exige atravessar essas camadas de fantasia e chegar ao que permanece sólido quando tudo o que é ruído é deixado de lado. A magia não é atalho para vantagens, não é palco para vaidade e não é instrumento de controle sobre outras pessoas. Ao contrário, ela nasce da lucidez. É uma linguagem da presença e da atenção, uma arte de organizar intenção, significado e ação para produzir transformação, primeiro dentro de nós, depois no mundo ao redor.
Ao longo deste texto, a proposta é olhar para a magia sem romantização nem ceticismo automático. Sem mitos, mas sem reduzir tudo a psicologia rasa. Entrar no campo simbólico com maturidade, reconhecendo que a magia sempre fez parte da forma como o ser humano tenta compreender e organizar a própria experiência. O que chamamos de magia talvez seja menos um fenômeno extraordinário e mais uma forma profunda de estar no mundo, alinhando o que pensamos, sentimos, fazemos e emanamos.
E peço apenas uma licença poética para as belas imagens que pesquisei no Pinterest. Afinal, pra imaginação não há limites.
Magia como relação entre consciência e realidade
Toda prática mágica parte de um princípio simples, embora muitas vezes mal compreendido: a consciência influencia a experiência. Não porque pensamentos isolados “materializem” fatos, mas porque a maneira como percebemos, interpretamos e nos posicionamos diante da vida molda a qualidade das escolhas que fazemos e das situações que atraímos ou repelimos. O campo interno — intenção, emoção, imaginação, foco — participa diretamente da forma como a realidade se organiza ao nosso redor.
Magia não é uma tentativa de controlar o mundo externo, mas de alinhar o mundo interno. Quando esse alinhamento acontece, nossas ações deixam de ser impulsivas e passam a ser coerentes, e é essa coerência que altera o curso dos acontecimentos. O mundo responde não ao desejo momentâneo, mas ao estado integral do praticante.
Nesse contexto, magia é o estudo das relações entre significado, energia e ação. Ela investiga como símbolos, imagens, narrativas e rituais moldam a consciência e, por consequência, transformam o comportamento e a qualidade das experiências. Não é um sistema de truques, mas uma disciplina que integra mente, emoção, corpo, tempo e intenção.
Esse campo não se limita ao plano psicológico. Desde as tradições mais antigas, a magia envolve uma compreensão ampliada da realidade, que inclui inteligências sutis, forças arquetípicas e campos de consciência presentes em diferentes dimensões do ser. Elementais, devas, orixás, anjos, deuses e guias não são “personagens mitológicos”, mas expressões de padrões vivos que sustentam a estrutura da natureza, do imaginário coletivo e das dimensões simbólicas que atravessam o humano.
Na prática mágica, esses seres não “fazem o trabalho por nós”. Eles atuam como alianças de frequência, catalisadores de intenção, forças que ressoam com o propósito do praticante quando há afinidade vibracional, ética e maturidade. São presenças que colaboram, inspiram e ampliam a percepção, mas que exigem responsabilidade e discernimento. A magia sempre foi uma arte de relacionamento — com o próprio inconsciente, com a natureza e com essas inteligências que nos acompanham desde tempos imemoriais.
Por isso, toda tradição mágica é também uma tecnologia simbólica enraizada nos ritmos do cosmos. Ela observa a Lua, o Sol, as estações, os mitos, as entidades, as plantas, as emanações telúricas e celestes. Todos esses elementos servem para sincronizar a consciência com uma ordem maior, permitindo que a intenção se torne presença e que a presença se torne ação transformadora.
Vontade, intenção e foco: o eixo da prática mágica
Nenhuma prática mágica se sustenta sem uma intenção clara. A intenção é o ponto de partida, a direção que orienta o fluxo da energia e organiza o campo interno. Magia não nasce do desejo vago, mas de um propósito consciente, formulado com honestidade e responsabilidade. Sem isso, qualquer ritual — por mais elaborado que seja — se torna vazio.
A vontade profunda é o que dá sustentação a esse movimento. Não se trata da vontade comum, caprichosa e mutável, mas daquela força mais silenciosa que traduz o que realmente importa, aquilo que está alinhado ao sentido da vida e não apenas ao impulso do momento. Essa vontade maior atua como eixo e critério. Ela define o que merece tempo, energia e comprometimento.
O foco é o instrumento que transforma intenção em realidade. Ele é a capacidade de manter a atenção no que importa, mesmo diante do ritmo dispersivo do mundo. A disciplina faz esse foco durar. É no cotidiano, e não em ocasiões extraordinárias, que a magia realmente opera. Cada gesto, palavra e escolha funciona como uma pequena afirmação do caminho que se pretende seguir.
Por isso, magia é menos “fazer acontecer” e mais “tornar-se alguém capaz de sustentar o que invoca”. Qualquer manifestação exige correspondência interna. Não adianta pedir por clareza se a mente está caótica; não adianta desejar cura se o comportamento reforça as feridas; não adianta buscar proteção se se alimenta o que fragmenta. O processo mágico começa no praticante.
A vontade, a intenção e o foco são, portanto, o tripé que organiza toda a arte mágica. Quando esses três elementos se alinham, não apenas a realidade externa muda, mas também a forma como habitamos essa realidade. E é justamente essa transformação interna que dá à magia seu caráter mais profundo e duradouro.
Magia como arte da transformação
No centro da magia está a transformação. Não a transformação espetacular que tanta gente imagina, mas a mudança gradual, consistente e profunda da consciência. O praticante não busca alterar o mundo à força, e sim alterar a si mesmo de modo que sua relação com o mundo se torne mais clara, coerente e significativa. Quando essa transformação interna acontece, o externo inevitavelmente responde.
Toda prática mágica é, de algum modo, alquímica. Ela começa pela observação honesta do próprio estado: padrões emocionais, crenças, vícios de comportamento, vínculos tóxicos, medos antigos, repetições que já não fazem sentido. Nenhum ritual substitui esse processo. A magia só começa a operar quando existe disposição real para revisar, deixar ir e reconfigurar o que precisa ser transformado.
Esse movimento lembra muito o que a psicologia moderna descreve como integração emocional, mas ultrapassa seus limites ao incluir dimensões simbólicas, energéticas e espirituais. A magia entende que imagens, mitos, rituais e arquétipos são ferramentas que falam a uma parte da psique que a razão não alcança. Eles produzem ressonâncias, deslocam padrões, iluminam zonas de sombra e abrem espaço para percepções mais amplas.
Por isso, transformar-se é a base de qualquer ato mágico. Antes de pedir por clareza, é necessário cultivar silêncio interno; antes de buscar prosperidade, é preciso dissolver crenças de escassez; antes de tentar manifestar um propósito, é fundamental abrir espaço para que o novo realmente tenha onde se enraizar. Não há manifestação sem preparação.
A magia opera sempre de dentro para fora. E quando essa ordem é respeitada, a transformação deixa de ser esforço e passa a ser consequência natural. O praticante começa a fazer escolhas mais alinhadas, percebe sincronicidades com mais nitidez, lida com desafios com mais consciência e deixa de repetir padrões que antes pareciam inevitáveis. Essa é a verdadeira magia: a mudança de identidade que provoca mudança de destino.
Tradições e escolas de magia
Ao longo da história, diferentes culturas desenvolveram caminhos próprios para investigar a relação entre consciência, energia e realidade. Embora cada escola tenha sua linguagem e seus rituais, todas partem de um mesmo princípio: a vida é atravessada por forças visíveis e invisíveis, e o ser humano pode dialogar com elas. A magia sempre foi menos uma técnica e mais uma forma de compreender o mundo.
O Hermetismo, surgido no Egito helenístico, é uma das bases da tradição ocidental. Seus ensinamentos afirmam que o universo funciona por correspondências e que transformar a consciência e transformar a matéria são movimentos paralelos. A alquimia, herdeira direta dessa visão, usa metáforas químicas para descrever processos internos: dissolução, purificação, integração, renascimento.
A magia cerimonial ganhou força na Europa renascentista, unindo Cabala, símbolos planetários, astrologia e rituais complexos. Séculos depois, ordens como a Golden Dawn organizaram esses elementos em sistemas estruturados que influenciaram profundamente o ocultismo moderno. Nessa linhagem, figuras como Aleister Crowley redefiniram a prática enfatizando a Vontade verdadeira, embora muitas vezes de forma controversa e sujeita a interpretações distorcidas.
A Wicca, criada no século XX por Gerald Gardner, resgatou símbolos pré-cristãos e celebrações da natureza, popularizando o pentagrama, os rituais sazonais e o princípio ético do “não causar dano”. Já a Bruxaria Natural segue um caminho menos ritualístico e mais intuitivo, centrado na relação direta com a terra, as plantas, os ciclos e os elementos.
A Magia do Caos, surgida no final do século XX, rompe com estruturas rígidas e afirma que símbolos são ferramentas, não verdades absolutas. O que importa é a eficácia da intenção. Essa tradição dialoga com psicologia, semiótica e teoria da informação e oferece uma abordagem experimental e flexível.
As práticas xamânicas, presentes em inúmeras culturas, entendem a magia como um serviço à comunidade e à natureza. O praticante atua como mediador entre mundos, trabalhando com estados ampliados de consciência, cantos, ervas e rituais de cura. No Brasil, as tradições de matriz afro-indígena articulam cura, ancestralidade, ritmo, plantas e comunicação com forças espirituais, oferecendo sistemas profundos de reorganização energética.
Esses são apenas alguns exemplos dentro de um universo vasto e complexo. Existem muitas outras tradições, caminhos híbridos, correntes contemporâneas e práticas populares que dialogam com a magia de maneiras igualmente legítimas. O tema é profundo e multifacetado, e seria impossível esgotá-lo aqui. O mais importante é reconhecer que, independentemente da escola, a magia exige consciência, intenção e ética. Sem isso, qualquer técnica se torna vazia; com isso, até o gesto mais simples pode se tornar um ato mágico.
A ética da magia: responsabilidade sobre a própria sombra
Nenhuma prática mágica existe de forma neutra. Toda ação simbólica, energética ou ritual reverbera de algum modo, tanto no interior do praticante quanto no campo ao seu redor. Por isso, a ética não é um detalhe ou um adorno filosófico, mas a base estrutural da magia. É o que diferencia transformação de manipulação, consciência de fantasia, lucidez de poder mal orientado.
A primeira responsabilidade do mago — de qualquer tradição — é olhar para a própria sombra. Sem esse trabalho, a intenção se contamina por vaidade, medo, carência, projeções e desejos de controle. O inconsciente não desaparece porque alguém acende uma vela ou usa um símbolo. Ao contrário: rituais podem ampliar justamente aquilo que não está integrado. Por isso, a magia exige coragem para reconhecer padrões, enfrentar contradições e dissolver ilusões pessoais.
A ideia de que se pode “fazer magia sobre os outros” é um dos equívocos mais comuns e também um dos mais perigosos. Qualquer tentativa de influenciar, impor ou ferir cria uma cadeia de consequências que inevitavelmente retorna ao praticante, não como castigo místico, mas como consequência natural da energia que se projeta. A palavra, o pensamento e o gesto carregam peso. Usá-los sem consciência é como acender fogo em um campo seco.
Magia responsável não busca domínio, busca clareza. Não tenta contornar a vida, tenta compreendê-la. Não manipula, reorganiza. Não submete, alinha. O trabalho é sempre interno: quanto mais coerente, íntegro e lúcido o praticante se torna, menor é a necessidade de técnicas externas e maior é a potência do seu campo pessoal.
Os antigos já diziam que “o mago é seu próprio laboratório”. Isso significa que a prática mágica começa e termina na própria consciência. A relação com anjos, orixás, devas, elementais e demais inteligências sutis também passa por esse filtro ético. Essas presenças não são instrumentos, e sim forças vivas que respondem a estados vibracionais. É a maturidade do praticante que define que tipo de aliança ele é capaz de sustentar.
Em última instância, a ética na magia não é um conjunto de regras, mas um modo de ser. Trata-se de agir com responsabilidade sobre aquilo que se pensa, se sente e se projeta. De reconhecer que todo movimento interno cria ondas externas. E de compreender que, antes de qualquer ritual, a verdadeira magia é sempre um compromisso com a própria consciência.
Magia e Natureza: ciclos, ritmos e simbolismo
Toda tradição mágica nasce da observação da natureza. Antes de existir qualquer ritual formal, já existia o movimento da Lua, o retorno das estações, o silêncio das noites profundas e o renascimento diário do Sol. A magia se estruturou a partir desse diálogo ancestral entre o ser humano e os ritmos do mundo. Ainda hoje, quem pratica magia está, de algum modo, relembrando esse pacto antigo: o de viver em sintonia com o tempo e com a terra.
Os ciclos lunares sempre foram um ponto de referência fundamental. A Lua regula marés, ritmos biológicos, estados emocionais e processos de fertilidade. Não é à toa que tantas práticas mágicas se alinham às quatro fases lunares, cada uma correspondendo a um tipo de movimento interno: iniciar, crescer, consolidar, liberar. Essa relação não é superstição, mas percepção do impacto que os ciclos naturais têm sobre o corpo e a psique.
A astrologia também integra essa lógica. Ela descreve os grandes ritmos cósmicos que atravessam todos os seres vivos. Planetas não “mandam” em nós, mas seus movimentos simbolizam processos que se desenrolam na consciência coletiva e individual. A magia, quando dialoga com a astrologia, não busca prever o destino, mas compreender as correntes energéticas que favorecem certos gestos e pedem outros.
As plantas, por sua vez, constituem um capítulo à parte. De ervas de cura a árvores sagradas, a botânica sempre foi uma forma de magia prática. Cada espécie carrega uma assinatura energética específica, que as antigas tradições identificaram intuitivamente muito antes da química moderna decodificar seus princípios ativos. A relação com plantas não é “poder sobre a natureza”, mas parceria com inteligências vivas que fazem parte do mesmo organismo planetário.
O mesmo vale para os quatro elementos — terra, água, fogo e ar. Eles não são apenas substâncias, mas estados simbólicos que descrevem movimentos internos. A magia usa esses elementos para ensinar equilíbrio: enraizamento, fluxo, clareza, vitalidade. Quando essas forças se desajustam internamente, produzimos desequilíbrios externos; quando se harmonizam, a experiência cotidiana se torna mais fluida e presente.
É por isso que a magia se apoia tanto em rituais, imagens e símbolos. Cada gesto, cada objeto e cada cor traduz uma forma de diálogo com a natureza e com o tempo. A verdadeira função do ritual não é agradar entidades, mas reorganizar o campo psíquico e energético do praticante. Quando os sentidos se engajam — visão, som, cheiro, toque — a intenção encontra um canal concreto para se expressar.
O papel da palavra, do gesto e dos símbolos
A magia sempre reconheceu que a linguagem molda a realidade. Antes de qualquer ritual sofisticado, é a palavra que organiza a intenção, dá forma ao pensamento e direciona o campo energético. O modo como falamos, nomeamos, prometemos ou amaldiçoamos não é neutro. Palavras carregam direção, ritmo, imagem, memória e efeito. O verbo pode curar ou ferir, abrir caminhos ou fechá-los. Na prática mágica, ele funciona como instrumento de precisão: é através da palavra que a intenção se torna clara.
O gesto é a extensão corporal dessa mesma consciência. Não é o movimento em si que produz efeito, mas a qualidade com que ele é realizado. Um gesto ritual funciona como âncora sensorial: fixa a intenção no corpo, dá forma visível ao invisível e sinaliza ao inconsciente que determinado estado está sendo ativado. Assim como na meditação, no yoga ou em práticas contemplativas, o gesto mágico organiza a presença. Ele traz o praticante para o aqui e agora, tornando o ritual um estado de atenção encarnado.
Os símbolos completam esse tripé. Eles são portas de acesso entre o consciente e o inconsciente, entre o individual e o coletivo, entre o humano e o arquetípico. Funcionam não pela lógica racional, mas pela ressonância. O pentagrama, por exemplo, não é apenas um desenho: é um mapa do ser humano integrado aos elementos. O cálice, a espada, a vela, o incenso, os altares, as cores, os animais e os mitos são chaves simbólicas que falam diretamente às camadas profundas da psique. Cada um ativa uma qualidade específica de energia, emoções, memórias e percepções.
Quando palavra, gesto e símbolo se alinham, surge o campo onde a magia opera. Não porque produzam efeitos sobrenaturais, mas porque sincronizam camadas distintas da consciência em torno de um mesmo propósito. A mente, o corpo, a emoção e a intenção começam a vibrar no mesmo sentido. É essa convergência que altera o estado interno do praticante — e, a partir daí, sua forma de agir, escolher e perceber o mundo.
A magia sempre entendeu que o poder não está no objeto, mas no significado. Não é a vela que transforma nada, mas o que ela evoca. Não é o símbolo que cria o resultado, mas o modo como o praticante se alinha ao que ele representa. Por isso, instrumentos podem ser úteis, mas não são necessários. A verdadeira ferramenta é a consciência, e todo resto é apenas linguagem.
Em última análise, palavra, gesto e símbolo são dispositivos de foco. Eles não substituem intenção, não compensam falta de clareza e não resolvem conflitos internos. Apenas amplificam o que já está presente. Quando o praticante compreende isso, a magia deixa de ser um conjunto de objetos e passa a ser um estado de lucidez que se expressa em cada escolha, em cada silêncio e em cada ação.
Magia não é milagre... e, ainda assim, é milagre
É importante reconhecer que magia não funciona como imaginam os contos de fadas. Não é um mecanismo instantâneo, não é uma suspensão das leis naturais, não é um atalho para evitar processos ou responsabilidades. Magia não substitui trabalho, disciplina ou maturidade emocional. Quem busca resultados imediatos ou soluções mágicas no sentido fantasioso do termo se frustra rapidamente.
Por outro lado, negar o milagre seria ignorar algo essencial. Há momentos em que a vida responde de formas tão precisas, tão simbólicas e tão improváveis que qualquer explicação puramente racional perde força. A sincronicidade, a coincidência significativa, o encontro inesperado que muda um caminho, a cura que parecia distante, a abertura que surge no instante exato — tudo isso pertence ao campo que, desde a antiguidade, chamamos de milagre.
A magia opera nesse limiar. Ela não força o milagre, mas cria condições internas para que o extraordinário se manifeste. Quando intenção, presença, ética e alinhamento se encontram, o campo se organiza. Não é “poder pessoal” no sentido de manipular a realidade, mas uma espécie de disponibilidade íntima ao mistério. A magia abre portas; o milagre é o que atravessa por elas.
Por isso, magia é processo, mas também é acontecimento. É disciplina, mas também é graça. É prática contínua, mas também é aquele instante em que algo maior se revela. O milagre não é a negação da lógica, e sim sua ampliação. Ele surge quando o mundo interno e o mundo externo entram em ressonância, quando a consciência do praticante se alinha a forças maiores que ele mesmo.
A magia não promete milagres. Mas, quando há lucidez, ética e coerência, ela cria o terreno fértil onde o milagre pode germinar.
O que a magia não é
Para entender o que é magia, também é preciso deixar claro o que ela não é. Não por rigidez, mas para evitar os ruídos que acompanham esse tema há séculos.
Magia não é manipulação. Qualquer tentativa de controlar alguém, interferir em caminhos alheios ou forçar resultados inevitavelmente distorce o processo e cria consequências internas sérias. Não existe “magia para dominar”, porque domínio não é magia, é insegurança disfarçada.
Magia não é espetáculo. Efeito especial, teatralidade ou excesso ritualístico podem ser esteticamente atraentes, mas não produzem transformação verdadeira se não houver intenção, presença e responsabilidade. O ritual sem consciência se torna performance; a performance sem verdade se torna ruído.
Magia não é fantasia infantil. Ela opera no campo simbólico, psicológico, energético e espiritual, não no território da onipotência. Achismos, superstição e fuga da realidade nada têm de mágico. A magia exige maturidade, lucidez e compromisso com a vida, não com delírios de grandeza.
Magia não é atalho. Ela não substitui trabalho interno, terapia, estudo ou mudança de comportamento. Não corrige padrões sem que o praticante esteja disposto a transformá-los. Ritual nenhum anula responsabilidade pessoal. Se alguém não quer mudar, não há símbolo ou entidade que faça isso por ele.
Magia não é uma coleção de objetos. Instrumentos, ervas, velas, símbolos e cristais podem servir de suporte, mas não são a fonte da força. Quando se confunde ferramenta com poder, perde-se a essência da prática. O objeto apenas amplifica o que já existe no praticante.
Magia não é garantia de resultados. Ela lida com processos vivos, com ritmos, com variáveis sutis. Há momentos em que a vida responde de forma imediata e momentos em que nada se move. Isso não significa falha, mas parte da dinâmica natural. A magia não é comando, é diálogo.
Em última análise, magia não é escapismo. Ela não serve para evitar a existência, mas para habitá-la com mais consciência. Não afasta desafios: amplia a clareza para enfrentá-los. É uma forma de estar no mundo, não de fugir dele.
Magia no cotidiano: gestos simples que revelam uma prática antiga
Embora seja cercada de símbolos e rituais sofisticados, a magia não está restrita a cerimônias complexas nem a círculos iniciáticos. Ela aparece nos gestos mais simples, desde que realizados com consciência, intenção e presença. Muitas vezes, alguém pratica magia sem sequer nomear assim. É a disposição interna que determina a qualidade do ato, não o ornamento externo.
Quando firmamos uma intenção antes de uma oração, já estamos realizando um movimento mágico. A prece organiza o campo interno, direciona a atenção, harmoniza emoção e pensamento, estabelece diálogo com forças maiores e alinha o propósito da ação. Não importa a religião: sempre que há intenção profunda, há magia.
O mesmo vale para rituais religiosos. Eles combinam palavra, gesto e símbolo para criar um estado coletivo de presença. Missas, rodas de cura, cânticos, bênçãos, defumações, oferendas, meditações guiadas — todas essas práticas operam no campo mágico, mesmo quando são entendidas apenas como expressão de fé. O rito ancora, estrutura e traduz a força da consciência em forma.
Acender uma vela é outra expressão dessa lógica. A chama simboliza foco, clareza e ligação com o plano sutil. Quando acendemos uma vela para um guia, um anjo, um orixá ou um mentor espiritual, não estamos “pedindo um milagre”, e sim criando um canal de conexão. A vela não é poder em si, mas um lembrete daquilo que buscamos sustentar internamente: luz, direção, proteção, presença.
Há também os rituais pessoais, muitas vezes silenciosos e íntimos. Escrever uma intenção, purificar um ambiente, preparar uma infusão de ervas com um propósito específico, caminhar em silêncio pela natureza, realizar um pequeno gesto de gratidão ao acordar — tudo isso faz parte da prática mágica quando há intenção consciente. O movimento simbólico reorganiza o campo emocional, e a vida responde ao que se torna coerente.
A magia cotidiana não exige espetáculo. Ela se manifesta quando escolhemos presença em vez de automatismo, sentido em vez de dispersão, propósito em vez de ruído. E, justamente por isso, pode ser mais transformadora que qualquer ritual elaborado. Pequenos gestos feitos com lucidez criam ondas longas.
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Fui espreitar o blog e amei... já estou seguindo :)
ResponderExcluirBom dia Marcelo!
ResponderExcluirBela homenagem para um lindo ser!
Beijo aos dois.
Astrid Annabelle
Eu sabia que vc iria dar um toque de luz no texto já tão iluminado da Maria Izabel de Viégas. Ficou um belíssimo texto de uma dupla de mágicos. Parabéns!!! Bjs nos 2
ResponderExcluirLindo texto e uma bela homenagem. Merecida.
ResponderExcluirGaspas: Siga mesmo, vai lhe trazer muita inspiração. Tenho certeza!
ResponderExcluirbjo
Astrid: amiga, vc, a Izabel e o Antonio formam meu trio de mestres queridos!!! #prontofalei
ResponderExcluirrsrsrsrrs
grande bjo querida
LuaNua: que lindo seu comentário. Estamos em sintonia!!!! Agradeço, vc é sempre bem vinda por aqui.
ResponderExcluirGrande bjo
Antonio: amigo, vc tb compreende, pois conhece Izabel tão bem ou melhor que eu.
ResponderExcluirGrato, querido. Sempre!!! :)))
Marcelo meu amado amigo,
ResponderExcluirnão tenho palavras para agradecer a tanta generosidade.
Pegou-me de surpresa, sabes que sou muito água, choro e choro de emoção. Precisei de um tempo para aqui chegar...
Querido, creio na simplicidade em tudo que fazemos.
Na cura pela palavra, ou pela simples imposição das mãos e a fervorosa crença de que estamos mergulhados num universo espiritual e que os desígnios do Pai, dos Mestres aliados ao amor que brota de nosso coração assumem proporções inimagináveis.
Sou- imensamente grata, embora não me julgue merecedora.
Sou imperfeita. Bem, talvez, os Mestres saibam que os imperfeitos têm uma missão ou Carma rs a cumprir.
Assim o é com muitos amigos aqui na Blogosfera, cada um a seu modo, abrem portais para outras dimensões.
Ahhhhh... querido....Obrigada! è uma honra estar aqui num post Teu, neste Blog Iluminado.
Sim, pois doas generosamente a beleza das suas Obras e distribue teu saber para todos nós.
Não sou mestra nada, menino!
Bem, sou Mestra por profissão rs
TE AMO TE AMO TE AMO!!!
Obrigada!
Gaspas,
ResponderExcluirobrigada querido!
Cada rostinho que surge lá no Memórias é motivo de enlevo e alegria! Também amei a tua chegada lá!
Beijos no teu coração!
Lua Nua querida,
ResponderExcluirpreciosa és!
Obrigada por tanto carinho.
Aqui na Blogosfera vamos nos re-unindo.
A Família Cósmica se juntando ... nós não sabemos os porquês, os Mestres sabem!
Muitos beijos no teu coração!
Astrid, minha irmã de alma e António , meu porto seguro!
ResponderExcluirJunto-os pois são dois seres de Luz que amo de paixão!
Meus Mestres!Obrigada, sabem que meu coração vos pertence!
Muitos beijos aos dois!
E Marcelo querido,
ResponderExcluirquando vejo tua alegria manifestada todos os dias,
essa risada gostosa,
me lembro dos YORIS,
estas entidades que se apresentam na Umbanda usando a roupagem fluídica de Crianças e que são Seres Espirituais mestres nos conceitos do Bem e do Puro, muitos oriundos de distantes Pátrias Siderais.
Eles ao brincar, distraem as pessoas sofridas, abrindo uma entrada nos seus corações.
És assim, abres com tua Alegria os corações tristes para que raios de luz penetrem e alimentem a nossa alma!
Mais uma vez...obrigada!
Oi Marcelo,
ResponderExcluirNão sou seguidora mas sempre passo por aqui ver a quantas andam...
O texto da Maria Izabel, belo belo... expressaram de maneira clara, singela e segura, aquilo que "nós" conhecedores do outro lado sentimos.
Parabéns para Maria Izabel e obrigada a você pela ponte.
Josie
Izabel querida! Já disse e repito de novo - você, Astrid e Antonio são meus mestres... como vc bem disse, meu porto seguro, minha inspiração.
ResponderExcluirEstou com vcs e não abro. Sempre carinhosos, solícitos, orientadores, sábios.
É bom que tenhamos um modelo a seguir, não é?
Tb sou imperfeito. Mas procuramos fazer nosso traqbalho da melhor forma possível. Espero que nossos mentores lá do alto tenham um pouquinho de condecendência com as nossas falhas,
Afinal, estamos aqui pelejando nessa 3D. kkkkkkkk Num é mole não!!!
Amei o que disse sobre os Yoris. Vc tb me emociona, querida.
grande bjo, grato pelo carinho infinito. Senpre!!!
Josie: Eu é q agradeço por suas palavras, sua gentileza. Saiba que vc é sempre bem vinda, venha sempre que quiser.
ResponderExcluirA casa é sua!
bjosssss
Josie querida,
ResponderExcluirnão existe segredos para quem já escolheu o caminho. Vc me parece ser uma destas!
Obrigada pelo comentário tão gentil. Reconfortante encontrar nosso povo, não é mesmo?
Grata por ser uma seguidora do mais que amigo Marcelo, assim nos encontramos!
Muitos beijos
Eu adoro ler você a a Maria Izabel, a energia que vocês emitem nas linhas que escrevem passam algo muito bom e sempre convidam para a reflexão, obrigada!
ResponderExcluirUm beijo pra vc e outro para a Izabel
Celo, aprendi que nós temos temos o poder da magia dentro de nós. É algo inato e inerente ao ser humano.. trazemos de outras vidas, é um poder ancestral. Então não existe motivo pra se achar poderoso por isso, pq todos nós somos magos, ou qquer nome que queira dar! Fiz vários cursos com o Rubens Saraceni, e ele diz sempre muito isso. Aprendemos a magia para saber nos proteger e nos ajudar, mas mais do que tudo, ajudar ao próximo. Já que temos esse poder dentro de nós, pq não despertá-lo para nosso benefício e especialmente para benefício do próximo? Tenho visto pequenos milagres também na utilização da Magia Divina (que não tem fundo religioso, mas tem muito da umbanda, já que o Rubens é umbandista). Somos, sem dúvida, movidos pelo poder do amor. Ajudar ao próximo é puro amor!
ResponderExcluirFazia tempo que não vinha aqui, e retornar com essa homenagem a Izabel, iluminada_mada, é motivo de alegria Marcelo. O que acrescentar diante da beleza e sabedoria, tanto das palavras dela quanto das suas? Fico em silêncio absorvendo esse AMOR...e preciso de mais???
ResponderExcluirBeijuuss nessas almas lindas
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